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Resenha: The Art of Contrary Thinking, de Humphrey Neil

29.Abril.2021

“Quando todos pensam da mesma forma, é muito provável que todos estejam errados”. 

Já ouviu falar que o melhor momento para comprar guarda-chuva é em dia de sol? A explicação é lógica: os preços são regidos pela lei da oferta e demanda. Portanto, em tese, o melhor momento para comprar um ativo seria quando ninguém está olhando ou se lembrando dele. 

O exemplo acima é óbvio, mas pensar fora da caixa e agir na direção contrária da maioria das pessoas não é simples. Pensar como a maioria e acreditar no que todos creem é nossa ordem natural. Raciocinar diferente exige a criação de um novo hábito, a fuga do óbvio. Segundo Humphrey Neill, autor do livro The Art of Contrary Thinking, bibliografia recomendada pela Convex Research, vale a pena agir de forma contrária. Em suas palavras: “It pays to be contrary!”, em tradução livre “vale a pena ser contrário"

Pensar fora da caixa e não se conformar foi o motor por trás das grandes invenções e negócios criados na história. Esse foi o grande combustível de cientistas como Thomas Edson, Albert Einstein, Isaac Newton e empresários como Steve Jobs, Mark Zuckerberg, Bill Gates e tantos outros. Essas histórias você já conhece, então o nosso foco é a aplicação desse princípio nos nossos investimentos e como isso te fará um investidor mais preparado e mais bem remunerado

Como funciona a Teoria do Pensamento Contrário?

Mais do que uma fórmula mágica para o sucesso, ela é o antídoto para o método tradicional de pensamento que privilegia um sistema de previsões falho e a aceitação da visão popular sem questionamento. É um sinônimo de precaução ou, nas palavras do economista Richard Ryteband, um estado de “humildade perante a incerteza”.

A teoria é baseada nas leis da sociologia, psicologia e no estudo das massas. Em seu estudo sobre a psicologia das multidões, Gustave Le Bon afirma que a principal caraterística das multidões é a sua susceptibilidade a sugestões. Enquanto indivíduos agem a partir da razão, a manada é guiada por emoções e impulsos. Talvez seja essa a razão da citação do filósofo Goethe “vejo que é cada vez melhor estar no lado da minoria, pois é o lado sempre mais inteligente”. 

“Duvide de tudo antes de acreditar”, Francis Bacon. 

O que a história nos mostra?

Tivemos no século 17 uma mania singular onde as tulipas se tornaram um símbolo de riqueza e status na Holanda. Para a sociedade holandesa naquela época, quanto mais rara, mais valiosa era a tulipa. Guiados pelo impulso, famílias começaram a se desfazer de terras e imóveis para comprar bulbo de tulipa. Em 1636 elas já estavam sendo negociadas na bolsa de valores de Amsterdam. Mas não demorou muito até que a bolha estourasse e as pessoas perdessem seu dinheiro.

Alguns séculos depois, a história mostrou novamente que nem sempre a maioria está no caminho correto. No período da 2º guerra mundial, especialistas e comentaristas eram unanimes ao falar que a economia iria despencar no fim da guerra, afirmando até que enfrentariam uma depressão como a de 1921. O desfecho foi justamente o oposto do previsto.

Na virada do milênio foi a vez da bolha ponto com. Com o avanço da internet e o otimismo exacerbado, vivemos um período de vários IPOs de empresas que não geravam lucro. O discurso é o mesmo “agora é diferente”, “as métricas de valuation precisam ser atualizadas”, “Banco Central descobriu como suavizar os ciclos econômicos”. O resultado ficou bem conhecido, e foi uma queda de 75% de março até o final de 2000. 

Em 2008, a euforia estava de volta aos mercados acionários, mas concentrada especialmente no setor imobiliário, resultando na crise do subprime

O que todas essas histórias têm em comum? O otimismo desenfreado que toma conta da multidão e impede que decisões racionais sejam tomadas. Todos aqueles que se deixaram levar pelo sentimento da massa, da mídia e até pela torcida de especialistas, viram seus investimentos virarem pó.

A arte do pensamento contrário é essencial para proteção diante de momentos de euforia como os citados acima, mas também é a chave para identificar oportunidades em períodos de pessimismo extremo.

"A multidão estará correta nas tendências de alta e de baixa, mas estará sempre errada nos pontos de inflexão"

Como aplicar esse conhecimento?

É tentador a partir deste ponto de compreensão, simplesmente escolher sempre o caminho contrário, independente da situação. Mas para que haja mais clareza e eficiência, a teoria deve ser vista pelo prisma do filósofo Hegel quando ele argumenta sobre os 3 aspectos de toda realidade: tese, antítese e síntese. Antes de se apressar em tomar uma decisão, considere a opinião em destaque (tese), questione e desafie a sua veracidade (antítese), e só então desenvolva o seu próprio raciocínio a partir da combinação das ideias (síntese).

A melhor maneira de aplicar o princípio do pensamento contrário é enxergá-lo como um estimulante de pensamento, e não um método determinístico.  O que o método propõe é o questionamento. Questione-se. Pense por outro ângulo. Aceite fatos, mas não qualquer opinião. Não tente prever o imprevisível, apenas se prepare para os cenários.

E por fim, mais um ensinamento trazido pela obra: o perigo do pensamento contrário é estar certo muito tempo a frente dos eventos. Mas se você não estiver certo previamente, provavelmente estará ultrapassado. 

“You are either a contrarian or you are dead”, Rick Rule

 
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